Projeto de Avaliação de Impacto ao Patrimônio Arqueológico na Área do Loteamento Residencial Merege, município de Barra Velha, Estado de Santa Catarina*
Patrimônio Cultural de Barra Velha: arqueologia, história, paisagem e memória
Nossa equipe está começando uma nova pesquisa neste Município e queremos compartilhar com você o que iremos investigar durante estes próximos meses.
Esse tipo de pesquisa está prevista na Instrução Normativa/IPHAN nº 001, de 25 de março de 2015, a qual dispõe sobre “os procedimentos administrativos a serem observados pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional nos processos de licenciamento ambiental” e visa atender ao disposto na legislação que trata da proteção e preservação do patrimônio arqueológico, em especial a Lei nº 3.924, de 26 de julho de 1961 que “dispõe sobre os monumentos arqueológicos e pré-históricos” e o Art. 216 da Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 que trata do patrimônio cultural brasileiro de natureza material e imaterial.
O que é arqueologia, o que é patrimônio arqueológico e quem fiscaliza as ações?
Clique nas imagens abaixo e sabia mais!
A história de Barra Velha está profundamente ligada à história de ocupação do litoral norte de Santa Catarina. Há milhares de anos, diferentes povos estabeleceram relações com este território, utilizando seus rios, lagoas, praias, áreas de mata e outros ambientes costeiros para viver, obter alimentos, produzir objetos e construir suas formas de organização social.
Ao longo do tempo, essas diferentes ocupações deixaram marcas no território e um rico conjunto de vestígios arqueológicos, que nos ajudam a compreender as transformações das paisagens e os modos de vida das populações que habitaram a região.
A linha do tempo a seguir apresenta, de forma resumida, alguns dos principais momentos dessa longa história. Nas próximas seções, vamos conhecer com mais detalhes os povos, os sítios arqueológicos e os processos históricos que fazem parte da formação cultural de Barra Velha.
Barra Velha através do tempo
Contexto arqueológico e histórico regional
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Exemplos de artefatos líticos referente a Tradição Umbu. Fonte: PROUS, 1992.

Exemplos de artefatos líticos referente a Tradição Humaitá. Fonte: PROUS, 1992
Vestígios de uma longa história: os sítios arqueológicos de Barra Velha
A longa história de ocupação do litoral também está registrada no território de Barra Velha. Até o momento, o Cadastro Nacional de Sítios Arqueológicos (CNSA) do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) registra quatro sítios arqueológicos no município, relacionados a diferentes momentos e formas de ocupação humana.
Entre os registros estão uma oficina lítica e um sambaqui associado à região do Rio Itapocu, além de outros sítios relacionados à presença e às atividades de populações indígenas que ocuparam o litoral catarinense.
Os sítios arqueológicos são lugares onde permanecem vestígios das relações estabelecidas entre as pessoas e o ambiente ao longo do tempo. Instrumentos de pedra, fragmentos de cerâmica, restos de alimentos, conchas, ossos e outros materiais ajudam os pesquisadores a reconstruir aspectos dos modos de vida, da alimentação, da tecnologia e das formas de ocupação da paisagem.


Entre as principais referências arqueológicas identificadas no litoral e em outras regiões do estado estão:
Tradição Umbu — aproximadamente 12.000 a 1.000 anos antes do presente
Associada a grupos de caçadores-coletores, essa tradição é reconhecida principalmente pela produção de instrumentos de pedra, incluindo pontas de projétil e outras ferramentas. Seus vestígios indicam o uso de diferentes ambientes e estratégias de obtenção de recursos.
Tradição Humaitá — aproximadamente 8.000 a 2.000 anos antes do presente
Relacionada a grupos que exploravam principalmente ambientes de floresta e áreas próximas a rios, apresenta conjuntos de instrumentos de pedra utilizados em diferentes atividades, como processamento de recursos vegetais, madeira e alimentos.
Povos sambaquianos — aproximadamente 7.000 a 1.000 anos antes do presente
Os sambaquianos ocuparam intensamente ambientes costeiros, explorando recursos marinhos e estuarinos, como peixes e moluscos. Esses grupos construíram os sambaquis, estruturas formadas principalmente por conchas, ossos e outros vestígios de atividades humanas. Além de locais de ocupação, muitos sambaquis apresentam evidências de práticas funerárias e possuem grande importância para o conhecimento da história das populações costeiras.
Tradição Itararé-Taquara — a partir de aproximadamente 2.000 anos antes do presente
Associada a populações indígenas relacionadas aos povos Jê do Sul, caracteriza-se, entre outros aspectos, pela produção de cerâmica e por diferentes formas de ocupação do território. Em algumas regiões do Sul do Brasil, esses grupos também construíram estruturas conhecidas como casas subterrâneas.
Tradição Guarani — últimos 2.000 anos
Relacionada à expansão de povos de língua Tupi-Guarani pelo sul da América do Sul, apresenta vestígios de aldeias, cerâmicas, instrumentos de pedra e evidências de atividades relacionadas à agricultura, pesca, caça e coleta. A presença Guarani faz parte de uma história indígena que permanece viva no território e ultrapassa o período arqueológico.
Essas diferentes ocupações não devem ser entendidas como uma sequência simples em que um povo desaparece para dar lugar a outro.
Em diferentes períodos, grupos distintos ocuparam, utilizaram e ressignificaram os mesmos territórios, estabelecendo relações próprias com rios, lagoas, florestas, praias e outros ambientes.
Sítio Arqueológico Rio Itapocu. Fonte: Fercant, 2026.
Além dos sítios já registrados, Barra Velha apresenta potencial para novas descobertas e pesquisas. Entre 1991 e 2025, pelo menos 14 projetos de pesquisa arqueológica relacionados ao licenciamento ambiental foram autorizados pelo IPHAN no município.
Essas pesquisas ampliam o conhecimento sobre a ocupação humana da região e também desempenham um papel importante na identificação, documentação e preservação do patrimônio arqueológico diante das transformações do território.
Conhecer esses vestígios permite compreender que a história de Barra Velha não começou com a formação do município. Ela faz parte de uma história muito mais antiga, construída por diferentes povos e registrada nas paisagens e nos vestígios que permanecem no território até hoje.
Territórios indígenas e memória: uma história que continua
A história de Barra Velha também é marcada pela presença e pela circulação de diferentes povos indígenas muito antes da chegada dos colonizadores europeus. Os registros arqueológicos e etno-históricos mostram que os territórios do litoral catarinense eram ocupados, percorridos e conectados por diferentes redes de relações, que ultrapassavam os limites dos municípios atuais.
O Mapa Etno-Histórico de Curt Nimuendajú, elaborado a partir de informações reunidas ao longo de décadas de pesquisa, constitui uma importante referência para compreender a distribuição histórica de diferentes povos indígenas no Brasil. No litoral norte de Santa Catarina, fontes históricas registram a presença de populações identificadas nos documentos coloniais como Carijó, denominação historicamente associada a grupos Guarani da região. É importante lembrar, entretanto, que essas denominações foram produzidas em contextos históricos específicos e não correspondem necessariamente às formas pelas quais esses povos se identificavam.
Essas populações estabeleciam relações profundas com os rios, lagoas, florestas e ambientes costeiros, desenvolvendo práticas de pesca, agricultura, caça, coleta, produção de artefatos e circulação pelo território. Os caminhos e lugares utilizados por essas populações faziam parte de redes sociais e culturais muito mais amplas do que os limites territoriais definidos posteriormente.

Uma presença que permanece
A história indígena de Santa Catarina não pertence apenas ao passado. Atualmente, o estado é território de diferentes povos indígenas, entre eles Guarani, Kaingang e Laklãnõ-Xokleng, que mantêm vivas suas línguas, conhecimentos, formas de organização, práticas culturais e relações com o território. Órgãos públicos estaduais reconhecem esses três povos como parte da população indígena contemporânea de Santa Catarina.
A presença contemporânea desses povos nos lembra que a história indígena é uma história de continuidade, transformação e resistência. Conhecer os vestígios arqueológicos e os registros históricos é importante, mas também é fundamental reconhecer os povos indígenas como sujeitos do presente, portadores de conhecimentos, memórias e patrimônios culturais que permanecem vivos.
Além da Arqueologia: Patrimônio Cultural de Barra Velha
O patrimônio cultural de Barra Velha é formado por diferentes bens e referências que ajudam a contar a história do município e das comunidades que construíram e continuam construindo sua identidade.
Nesta pesquisa, além do patrimônio arqueológico, apresentamos outros bens culturais acautelados e referências culturais da região, incluindo patrimônios materiais, paisagens culturais e manifestações imateriais.
Da pesquisa ao território: conhecendo o patrimônio em campo
A pesquisa arqueológica não acontece apenas nos laboratórios ou nos livros!
É no território encontramos, registramos e documentamos os vestígios que ajudam a compreender as diferentes formas de ocupação humana ao longo do tempo. Durante os trabalhos de campo em Barra Velha, a equipe realiza atividades de prospecção, reconhecimento do terreno, registro de informações, documentação fotográfica e identificação de evidências arqueológicas.
Essas atividades permitem conhecer melhor os locais pesquisados e avaliar sua relação com as paisagens, os cursos d’água e outros elementos do território. Quando são identificados vestígios arqueológicos, eles são cuidadosamente registrados e documentados, seguindo procedimentos técnicos específicos. Cada vestígio encontrado em campo é parte de uma história maior.
Por isso, pesquisar arqueologicamente também significa reconhecer, documentar e contribuir para a preservação do patrimônio cultural!
Conhecimento que retorna ao território
Ações de divulgação, educação patrimonial e extroversão
A arqueologia também é uma forma de aproximar pessoas de suas histórias e de seus territórios. Por isso, a pesquisa realizada em Barra Velha inclui ações de divulgação e extroversão voltadas à comunidade local e às pessoas que vivem, estudam, trabalham e visitam a região.
As ações buscam compartilhar os resultados da pesquisa de maneira acessível, valorizando não apenas os sítios arqueológicos, mas também os diferentes bens culturais que fazem parte da história e da identidade de Barra Velha.
Assim, a arqueologia é apresentada em diálogo com o patrimônio histórico, as paisagens culturais, as tradições e as memórias que permanecem vivas no município. Esta ação de extroversão é destinada principalmente à comunidade de Barra Velha e de seu entorno, incluindo moradores, estudantes, professores, instituições culturais, pesquisadores, trabalhadores, visitantes e demais pessoas interessadas na história e no patrimônio cultural da região.
Nosso objetivo é tornar o conhecimento produzido pela pesquisa acessível e contribuir para que a própria comunidade reconheça, valorize e participe da preservação de seu patrimônio cultural.
Você conhece uma história, fotografia, objeto, lugar ou tradição que considera importante para a memória de Barra Velha?
Compartilhe sua história conosco! A participação da comunidade ajuda a ampliar o conhecimento sobre o patrimônio cultural e as diferentes histórias que fazem parte do território!

Saiba mais sobre a pesquisa arqueológica no âmbito do licenciamento ambiental (clique aqui)
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